Licenciado Sem Rumo Reto
Vivemos
num mundo globalizado e tecnológico. Hoje em dia, quase todas as pessoas
competem mais na vida, nomeadamente, através da obtenção do grau de
licenciatura. A maior parte dos jovens timorenses que querem continuar os seus estudos
no ensino superior encontra-se em Díli.
Os pais, por
carência de conhecimento, naturalmente, seguem apenas as decisões tomadas pelos
filhos. Eles não entendem que os filhos escolham determinados departamentos ou
faculdades, ou, quando terminarem os seus estudos, se serão integrados ou não
no mercado de trabalho, já que, atualmente, muitos licenciados se encontram
desempregados.
O que estamos a
observar é a formação de muitos licenciados pelas Faculdades de Direito,
Ciência Social, Ciência de Saúde, Engenharia, Economia e Agricultura que são produtos dos institutos
e das universidades timorenses, nomeadamente a UNPAZ, UNDIL, CRISTAL, IOB,
UNITAL e UNTL. Por ano, essas instituições formam um elevado número de
licenciados, não se sabendo em que condições será acolhido o dito número.
Na Universidade
Nacional de Timor Lorosa’e há uma Faculdade de Educação, Artes e Humanidades.
Essa faculdade tem como missão indispensável preparar os universitários para
serem futuros professores. Contudo, não há uma cooperação sistemática e
adequada, pois o que ocorre na prática é que após a licenciatura desses
estudantes, muitos rumam para outras áreas de trabalho que não combinam com as
suas especialidades; a título de exemplo, muitos vão trabalhar na administração
pública e/ou empresas. Eu e os meus nove colegas exercemos a função de
tradutores em instituições públicas. Por outro lado, muitos formados da
referida faculdade não são convocados, utilizados e aproveitados pelo
Ministério da Educação a fim de exercerem funções como professores. Não há o
cumprimento da expressão inglesa, the right
man, in the right place - o homem certo no lugar certo – ou seja, esses
profissionais são colocados em locais errados. Estamos a preparar as sementes
dos que serão os futuros educadores de Timor-Leste mas que, infelizmente, fogem
para outros locais de trabalho. É preciso melhorar a gestão dos recursos
humanos. O procedimento deveria seguir a linhado que o Ministério da Saúde faz
com a UNTL: os universitários que estão a tirar o curso de medicina e
enfermagem na UNTL, quando terminam os seus estudos, já têm vagas
disponibilizadas. Assim sendo, sem dúvida que não enfrentarão o desemprego ou
trabalharão noutras empresas, ou seja, irão servir para as instituições
públicas, nos respetivos hospitais e clínicas. O Ministério da Educação
timorense deveria atualizar a sua base de dados com os finalistas da Faculdade
de Educação, Artes e Humanidades, a fim de que quando acabem os seus cursos,
possam ensinar nas escolas que carecem de educadores.
Ademais, é preciso
haver contacto contínuo entre os bolseiros timorenses no estrangeiro e os
respetivos adidos para que identifiquem previamente os cursos que esses
bolseiros estão a tirar. Desta forma, quando finalizarem os seus estudos, já haverá
lugares preparados para eles. Há licenciados que concluíram os seus estudos de
Engenharia e Relações Internacionais em Portugal que estão a trabalhar na
administração do Ministério da Educação timorense. Há ainda muitos outros que
se encontram noutras instituições e empresas que ainda não foram identificados.
Mais acrescento que
há muitos licenciados de universidades privadas, e que vêm da Indonésia, que se
encontram desempregados, embora já tenham os diplomas na mão. Pelo facto de não
dominarem português e inglês – porque quando se domina inglês, há maior
possibilidade de trabalhar em agências internacionais - ficam sem trabalho.
Para muitos desses formados desempregados, a solução passa pela abordagem da
embaixada portuguesa para que obtenham o bilhete de identidade português,
facilitando assim a sua entrada no mercado de trabalho na Europa, como por
exemplo no Reino Unido, Irlanda e outros países europeus onde vão trabalhar
como funcionários em fábricas. Alguns aproveitam o seu tempo livre e frequentam
cursos de coreano e inglês para poderem trabalhar na Coreia do Sul e na Austrália.
Existem ainda
colegas licenciados da Faculdade de Agricultura que trabalham em Bancos. Eles
aprenderam na universidade a arte de cultivar a terra. Nos Bancos, lidam com questões
relacionadas com finanças ou economia. Isto sucede, por vezes, devido às
condições económicas que lhes exigem rumarem a outra área.
Eu felicito o
sistema que a UNITAL adota, designadamente, a Faculdade de Ciências da
Educação. Durante o estágio profissional, tendo em conta a naturalidade dos
estagiários, cada um é colocado no seu município de origem. Naturalmente, as
escolas solicitarão os professores que ali estagiaram para não irem ensinar noutras
escolas ou noutros municípios. Considero esse sistema admirável pois traz
inúmeras vantagens para os estagiários e para as escolas nas quais eles
estagiam. Depois de se formarem, certamente não ficarão sem emprego, pois há
escolas com o desejo de contratá-los. Portanto, as escolas que carecem de
recursos humanos, podem aproveitar esses estagiários e tentar depois
recrutá-los como seus professores.
Muitos
profissionais que atuam na área de educação, embora não tenham formação
pedagógica e didática, por exigência económica, exercem funções como professores.
As consequências, em muitos casos, traduzem-se em violência para com os alunos e
falta de método apropriado para levá-los a compreenderem a matéria das
respectivas disciplinas. Por sua vez, a situação de violência para com os
alunos gera incompreensão por parte dos pais que se deslocam às escolas e
brigam com os professores que agrediram os seus filhos. Obviamente, este tipo
de situações perturba grandemente o processo de ensino e aprendizagem.
Com este artigo,
espero que os leitores consigam refletir acerca da boa gestão dos recursos
humanos disponíveis. Tem de haver uma mudança positiva para que os nossos
profissionais não andem vagabundamente, para que sejam colocados nos locais
apropriados de forma a desenvolverem-se profissionalmente.
Caetano da Costa
Bobo.
Contacto telefónico: 77366240
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