Tétum Introdutório e Aptidão dos Ensinos Superiores
Lê-se numa frase: “A Universidade X ensina o Tétum durante o processo de ensino e aprendizagem”.
Esta frase foi
retirada duma fonte em Tétum (https://www.youtube.com/watch?v=seU1L5kZ2zU&t=121s), que traduzi para o Português. Pretende aqui fazer-se
uma simples retificação da frase emitida por aquela fonte de notícias, pois a
linguagem jornalística deve ser clara e objetiva, a fim de não criar dúvidas
aos leitores, ao verem ou lerem as notícias em causa (cf. https://www.todamateria.com.br/texto-jornalistico/).
De facto, da referida
frase resulta um sentido ambíguo. Isto é, a frase é equívoca, podendo surgir
duas ou mais interpretações:
1. Significa que a Universidade X ensina o Tétum como
ciência linguística (Tétum como um Departamento);
2. Significa que tem o Tétum como língua introdutória;
3. Significa que é
proibido falar outros idiomas, a não ser o Tétum, no recinto da universidade.
Ora, sabendo-se que
o Tétum é uma língua que introduz as ciências, a frase correta deveria ser: A Universidade X ensina o Tétum como língua introdutória. Por
outras palavras, quer dizer que o Tétum é uma ponte ou veículo que ajuda os
alunos ou universitários a alcançarem os seus objetivos académicos. Isto é, é através
do Tétum que os alunos irão adquirir a ciência.
De facto, o Tétum é
um idioma que possui a sua própria terminologia científica, com o empréstimo
lexical do Português, que é convertido para a ortografia do Tétum desenvolvida pelo
Instituto Nacional de Linguística (INL), fundado ao abrigo do Decreto do
Governo n.º 1/2004, de 14 de abril.
No entanto, se é
certo que o Tétum possui a sua própria ortografia, isso não significa colocar de
lado o Português. Há dias, num
discurso, o Professor Doutor Benjamim de Araújo e Corte-Real disse: “-O Português
é como uma fonte; quando o Tétum tem sede, vai ter que recorrer a essa fonte”. Essa metáfora diz-nos que quando o Tétum
carece de palavras técnicas, tem que se recorrer ao Português a fim de o completar.
Por outro lado, o emprego do Tétum como língua introdutória evita que os
timorenses se increvam nas universidades indonésias, e assegura uma aprendizagem
linear em termos da língua introdutória, pois desde do ensino básico e
secundário as línguas de introdução que se utilizam são o Tétum e o Português.
Se no ensino superior se empregar Bahasa
Indonesia como língua de instrução, isso vai inequivocamente atrasar e
prejudicar o processo de aprendizagem dos universitários, por não dominarem
essa nova língua introdutória. Note-se que a Bahasa Indonesia que se utiliza no ensino superior não é a língua
comum; é a língua técnica e científica ou linguagem académica, que leva algum
tempo a estudar.
Como timorense, sinto-me feliz por ser utilizado nas universidades
timorenses o Tétum como língua introdutória. É a prova de que essas
universidades são patriotas, pois utilizam a sua própria língua como língua de
instrução, embora ela ainda careça de alguns termos técnicos. A adoção do Tétum
como língua de introdução demonstra-nos que as universidades obedecem ao
ordenamento jurídico, em particular a Constituição da República Democrática de
Timor-Leste, que no n.º 1 do artigo 13.º indica que “O Tétum e o Português
são as línguas oficiais da República Democrática de Timor-Leste”.
As instituições de ensino superior que empregam outra língua,
designadamente Bahasa Indonesia,
evidentemente não fornecem as adequadas condições aos alunos, que serão prejuicados
no futuro, por não serem tão aptos a concorrer ao mercado de trabalho.
Uma universidade credível, para além de transmitir o conhecimento
científico aos alunos, deve também prepará-los para as ofertas do
mercado de trabalho. O que é que o mercado procura ou exige? Se uma empresa
necessita de um engenheiro, de que lhe serve um político? Do mesmo modo, se o
mercado procura um trabalhador fluente em Tétum, de que lhe serve um candidato
que não sabe falar o Tétum corretamente?
Ora, conhecemos bem a generalidade dos processos de recrutamento, que prevê
diversas fases: primeiro, a seleção dos documentos; segundo, um teste escrito;
terceiro, um teste ou entrevista oral (que pode incluir também um teste
psicológico). No entanto, também é tida em conta a qualidade da universidade em
que o candidato se formou.
Na fase da seleção dos documentos, quando um candidato vem duma
universidade que não promove o Tétum, esse candidato vai ser assinalado
imediatamente. Ele poderá passar para a fase seguinte, ou não passar.
No teste escrito, certos candidatos podem não entender o enunciado, por não
possuirem competência na compreensão do Tétum. Por vezes, o candidato entende o
enunciado, mas por falta do domínio linguístico, ele pode escorregar na produção
escrita.
Terceiro, na fase de entrevista, o candidato que não está preparado
psicologicamente e não tem o domínio da terminologia técnica em Tétum, por ter
aprendido noutro idioma, naturalmente vai ser chumbado.
Em síntese, as universidades não devem limitar-se a retirar benefícios
financeiros dos seus alunos. Têm também a responsabilidade de preparar os
universitários para que no futuro encontrem mais facilmente um emprego segundo
as suas especialidades, designadamente promovendo o uso do Tétum como língua
introdutória.
Autor: Caetano da Costa Bobo
Telemóvel: +670 77366 240

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