Aspetos a melhorar no setor da Educação
Apesar dos progressos dos últimos anos, a educação em Timor-Leste tem
bastantes insuficiências que, se não forem enfrentadas, limitarão o
desenvolvimento e a prosperidade das próximas gerações. O presente artigo
constitui, pois, uma reflexão sobre alguns dos aspetos que poderiam contribuir
para melhorar esse setor, e para melhor qualificar e capacitar as crianças e
jovens do nosso país.
Muitos dirigentes escolares não são persistentes, e devem fazer uma
supervisão de rotina relativamente às atividades didáticas dos seus professores,
solicitando-lhes que façam relatórios relativos às suas atividades letivas, bem
como uma reunião do corpo docente pelo menos uma vez por mês. Os relatórios
apresentados pelos docentes são vitais para analisar a participação dos alunos
no decurso das aulas, e os desafios enfrentados. Quanto à reunião mensal do
corpo docente, serve para que em conjunto solucionem esses desafios ou
preocupações, já que "duas cabeças pensam melhor do que uma". Se os dirigentes
escolares ignoram as atividades executadas pelos seus subordinados, os docentes
vão ficar de braços cruzados, sem se preocupar com o futuro dos seus alunos.
Ao definir uma metodologia de ensino, é preciso saber primeiro:
1)
A quem é aplicada essa metodologia? As
metodologias diferem entre cada nível de estudo. Não deve ser usada a
metodologia do Ensino Básico para ensinar os alunos do Pré-Escolar, pois cada
ciclo ou nível de ensino tem as suas próprias metodologias.
2)
Como aplicar essa metodologia? Se
já há metodologias, é necessário saber aplicá-las. Isto é, é preciso saber a
maneira ou forma de aplicar essa teoria.
3)
Quem aplica essa metodologia? Ao aplicar
essa metodologia, requer-se a aptidão do professor para atingir as metas, e
assegurar que os alunos possam adquirir as teorias ou ciências transmitidas.
É responsabilidade dos diretores das escolas assegurar a supervisão dos
professores seus subordinados. Com a supervisão competente de um diretor da
escola, os professores dessa escola irão assumir as suas responsabilidades como
bons profissionais, pois o superior tem competência para avaliar e aplicar sanções
disciplinares aos docentes que não cumpram as regras previstas. Em virtude da
carência do controlo dum dirigente escolar ou diretor da escola, os professores
nem sempre cumprem os seus deveres como educadores: em vez de darem aulas, dão apenas
apontamentos, ou escrevem no quadro algo que os alunos se limitam a copiar. Em
certas escolas, alguns professores exploram os alunos: por uma cópia que custa só
0,50 dólares, os professores exigem que cada aluno entregue 3 a 5 dólares. Os
alunos não têm coragem de fazer queixa, pois receiam ser reprovados ou ter avaliações
negativas, tudo devido à falta do controlo dos diretores das escolas.
Em certo sentido, podemos dizer que alguns professores ensinam nas escolas
só por necessidades económicas ou para procurar obter lucros individuais. A
metodologia que esses professores usam, como dar apontamentos para os alunos
copiarem, ou ausentarem-se sem dar esclarecimentos relativos aos apontamentos
que foram entregues aos alunos, não produz o mesmo proveito, e só vai causar
grande prejuízo para o futuro dos alunos. Qualquer nível de estudo requer a
presenças dos educadores para prestar esclarecimentos. Desde o Ensino Básico ao
Secundário, qualquer nível de ensino requer o acompanhamento presencial dos
professores a fim de esclarecerem as dúvidas que os alunos têm. Os alunos não
podem ser abandonados nas salas de aulas, como uma personificação do ditado:
“Os gatos saem, os ratos pulam na mesa”. Nalguns casos, os diretores das escolas
têm conhecimento das atitudes irresponsáveis praticadas pelos professores seus
subordinados. Contudo, os diretores não têm coragem de revelar essas verdades;
continuam a guardar esses segredos com o intuito de essas escolas continuarem a
ter boa imagem junto do público e para não sujar o nome da escola. No fundo, estão
a defender-se. Isso é um dos problemas que estamos a enfrentar na educação
timorense. A verdade deve ser dita, desde que a crítica seja construtiva para o
bem comum; a pior coisa do mundo é reconhecer os próprios erros. Com essas
violações crescentes nas escolas públicas, geram-se problemas maiores na
educação timorense. Na minha ótica, certos docentes praticam esses atos devido
às suas condições de remuneração, pois alguns professores não estão enquadrados
no quadro permanente da Função Pública. Alguns têm uma menor remuneração e não
estão a ser beneficiados pelo Regime Especial, para poderem ter justas
condições salariais.
Numa escola ideal, é necessário que
exista uma Associação de Pais bem organizada e estruturada. O intuito da
criação dessa associação é os encarregados da educação terem contacto próximo
com os professores da escola e acompanharem o progresso do estudo dos filhos.
Para além disso, uma Associação de Pais permite aos pais coordenarem-se para
dar à escola os seus contributos, seja ao nível material ou financeiro, ou ao
nível de ideias construtivas para o melhoramento do ensino e para o crescimento
moral e espiritual dos alunos. Trata-se ainda de uma forma adicional de
assegurar que os estudantes não desperdiçam o seu tempo em coisas inúteis, pois
tal como acima referido, os professores têm contacto próximo com os seus encarregados
da educação. Por fim, a Associação de Pais também pode ser o interlocutor
próprio para os alunos terem a liberdade de expressar ou relatar algo que decorreu
na escola sem medo de represálias, designadamente quando denunciem
comportamentos abusivos de alguns professores (por exemplo: exploração ou
cobrança ilegal). O estabelecimento da associação deve definir o estatuto ou
normas que regulam essa associação e as competências dos pais.
Ensinar é uma arte. Vale isto por dizer que o professor precisa de ter
arte para ensinar; puxar os alunos para apreender e adquirir as teorias
transmitidas. Por exemplo, em vez de encarcerarem os estudantes nas aulas, podem
criar uma atividade audiovisual ou ver televisão. Nessa atividade, depois de os
alunos verem o filme, no regresso para a sala de aula, o professor pede aos
alunos para que façam o reconto sobre aquilo a que assistiram na televisão, e
relacionem isso com as realidades quotidianas. Nessa atividade, os alunos vão
adquirir competências na compreensão e produção oral.
A maior parte das escolas timorenses não funciona conforme o padrão
ideal. O padrão ideal, no ensino básico é de um máximo de 25 alunos por turma,
enquanto que no ensino secundário é de um máximo de 30 alunos por turma. Na
realidade, o que acontece, é que cada turma recebe entre 50 e 70 alunos. Com
esse maior número de alunos de cada turma, com certeza os docentes não
conseguem controlar os alunos nas salas de aula, e a participação deles vai ser
mínima. O excessivo número dos alunos numa sala de aula impede o professor de
gerir o tempo da aula. Por exemplo, se o professor quiser desenvolver
atividades de compreensão escrita e produção oral, precisa de tempo depois das
apresentações, para fazer comentários e correções a cada aluno com intenção de que
os alunos aprendam e não voltem a cometer os mesmos lapsos ou erros. Ora, com
este número de alunos vai demorar dois ou três meses para terminar essas
atividades.
O principal desafio que temos identificado no setor da educação em
Timor-Leste é o facto de não haver um maior investimento. Temos recursos
humanos produzidos por certas universidades, como a Universidade Nacional Timor
Lorosa’e, e por algumas instituições privadas. Contudo, esses recursos humanos
não estão a ser utilizados para irem dar aulas nas escolas.
As instalações das escolas também condicionam o ensino. De facto, as
escolas públicas não têm biblioteca ou mediateca que funcionem
padronizadamente. A existência de uma biblioteca é fundamental para influenciar
os alunos e professores a terem hábitos de leitura. Vale aqui o que referi
relativamente ao investimento na educação timorense; é preciso instalar mediatecas
nas escolas ou computadores com acesso à Internet, a fim de os professores terem
informações atuais e saberem utilizar e navegar na Internet, pois estamos num
mundo globalizado.
Os professores devem dedicar-se só a uma escola. Isto é, devem trabalhar
o dia todo na mesma escola. Por exemplo, de manhã dão aulas e à tarde vão à escola
para fazer pesquisa ou preparar as matérias para as próximas aulas.
Digo francamente, por experiência pessoal: grande parte dos timorenses
não está habituada à leitura. Há dias publiquei um artigo no Facebook, e esse
artigo é acompanhado por uma imagem do Cemitério de Becusse. O artigo falava
sobre a maior taxa de mortalidade em Timor-Leste e estava escrito em tétum. Mas
embora estivesse escrito em tétum, língua que praticamente todos os timorenses
sabem, houve só duas pessoas que comentaram. Com base nesses dois comentários, constato
que nós timorenses não temos o hábito de ler. Isso é uma das causas da falha da
nossa educação: nas escolas, os alunos não são incentivados a ler ou a fazer
uma leitura analítica para compreender o teor de um texto. Com o aumento da
mortalidade, o Cemitério de Becusse já não tem mais espaço para permitir fazer
o enterro dos falecidos. E as nossas autoridades, que têm obrigação de procurar
uma melhor solução para satisfazer o público, deviam assegurar desde logo que
existe apenas um modelo para cada campa, que os espaços de intervalo entre as
campas não são ocupados indevidamente, e que dois ou três cadáveres possam ser
sepultados na mesma campa. Se se confirmar a intenção do Governo de criar o
novo cemitério num lugar distante como em Metinaro, isso vai dificultar a vida
daqueles que não têm condições económicas, e que terão que alugar transportes
para a cerimónia fúnebre, entre outras despesas. No entanto, apesar de este ser
um assunto muito relevante que deveria despertar a atenção do público, ninguém
pareceu dar-lhe importância.
Este artigo constitui um alerta, a fim
de acordar os nossos Governantes a quem compete resolver este nosso problema da
educação, em especial o Ministério da Educação. Pois diz Nelson Mandela: “A educação é a arma mais poderosa que
você pode usar para mudar o mundo.” Caso não haja uma séria atenção, o futuro do país vai estar
sob ameaça. E a educação em si é o “processo que visa o pleno desenvolvimento
intelectual, físico e moral de um indivíduo (sobretudo na infância e na
juventude) e a sua adequada inserção na sociedade”.
Caetano da Costa Bobo
Formador de Língua
Portuguesa, Tradutor e Revisor Linguístico.
Endereço
Eletrónico: dacostabobo.caetano9@gmail.com
Telemóvel: +670
7736 6240
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